O Cara do Metrô

Antes de ler, aperte o play.

Cansada da semana inteira de trabalho e faculdade, decide acordar cedo e sair para tomar café na rua. Ela precisa espairecer e a sua casa não é o lugar pra isso, a louça está por lavar e as roupas para estender, mas não quer pensar em deveres agora. O dia está nublado, não chega a ser frio, mas com certeza quente não é, o tempo está bom o suficiente para usar um casaco leve, aquele vermelho velhinho, o seu preferido. Depois de alimentar os gatos, escolhe na estante repleta de livros lidos e relidos um Pablo Neruda para acompanhá-la na cafeteria.
Sai de casa e caminha até o metrô enquanto fuma o seu cigarro e vê o mundo andar devagar. Os mendigos estão recolhendo suas coisas, as lojas ainda estão fechadas e alguns jovens com roupas de balada amarrotadas, andam semi bêbados em direção à estação.

Desce as escadas, prestando atenção na textura dos degraus e observa as paredes como se fosse a primeira vez que estivera ali. Não está feliz, mas também não se sente triste, apenas está cansada, buscando algum momento de paz.
Ainda é cedo na manhã de sábado e o metrô não está lotado, fica feliz, pois consegue sentar-se no seu lugar preferido. Sim, ela tem um lugar preferido no seu vagão preferido do metrô.

tumblr n447tnXX1e1s52ze7o1 500 O Cara do Metrô

Senta e observa as pessoas ao seu redor. O livro aguarda pela cafeteria, lá é o lugar destinado para aproveitá-lo e absorvê-lo. Enquanto isso somente os fones de ouvido a acompanham, tocando músicas calmas para uma manhã de dia nublado.
Seus olhos passeiam pelas pessoas, bancos vazios e o escuro do túnel que se move rapidamente. Passeiam sem um objetivo certo, apenas querem ver a vida que acontece. Até que, muito abruptamente, sentem-se fisgados por uma capa.
“20 Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada”

Exatamente o mesmo livro que está guardado dentro de sua bolsa. Não consegue controlar a pequena felicidade pela ínfima coincidência e sorri, muito timidamente. Resolve tirar os olhos do livro e observar quem o lê.
Usa um All Star vermelho completamente surrado, calças Jeans escuras e uma camiseta azul marinho de mangas longas. Está com uma touca preta, que não deixa revelar se tem cabelos longos, curtos ou bagunçados, só consegue saber que são escuros. Os olhos são fortes, estão concentrados e envolvidos em Neruda. O mesmo livro. Ela ainda não consegue acreditar. Ele lê movimentando a boca, como se fizesse carinho nas palavras. Ela está encantada e o resto do metrô já não importa mais.

Bráulio Vinícius Ferreira2295 O Cara do Metrô

Ele segura o livro com uma mão e a outra segura a barra do metrô. A manga longa desce até quase o cotovelo, revelando o braço tatuado. Mesmo com tanto lugar livre, ele se mantém em pé. Deve descer logo. Tem cara de publicitário, criativo, inteligente… Deve ser artista. Músico será? Talvez pintor ou escultor.
Pensa em tirar o livro da bolsa para estabelecer alguma comunicação, quem sabe um sorriso ou início de conversa. Poderia convidá-lo para tomar café junto, falar sobre poesia, dividir um cigarro.

Seria lindo como depois do café trocariam telefones e combinariam um cinema para mais tarde naquela mesma semana. Quem sabe também, depois de alguns dias, quando o sol voltasse a aparecer, poderiam passear pelo Jardim Botânico e andariam de mãos dadas pela primeira vez. O vento viria fazer carinho nos dois e enquanto ele tirasse o cabelo do rosto dela, diria “você é o melhor poema de Neruda que já li” seguido por um grande e forte beijo.

Couple in Green Park O Cara do Metrô

Depois de muitos cinemas, shows, bares e teatros, chegaria o momento. Numa noite de queijos e vinhos na sua casa, com os gatos dormindo aos seus pés, ele olharia nos seus olhos com a mesma intensidade que lia poemas e diria “quer namorar comigo?”.

Seria um namoro tão intenso e forte que não pensariam duas vezes antes de irem morar juntos e adotar mais um gato. Iriam para um apartamento muito alto, com uma vista linda da cidade, com uma sacada gigante onde ela poderia tomar chá e observar o inverno chegar.

Depois de 3 anos juntos, em uma viagem para o Chile, ele declamaria um poema de Neruda e a pediria em casamento. Ela diria que sim e os dois seriam felizes, muito felizes. Teriam dois filhos completamente capetas e criados envoltos em arte, música e cultura. Dois meninos. Inteligentíssimos. Tornar-se-iam grandes artistas também.

O barulho do metrô anuncia a próxima estação e ele vai embora.

Ela segue por mais duas estações, vai até a cafeteria, pede um capuccino, acende mais um cigarro e antes de começar a ler, fica brevemente triste pelo relacionamento que não teve com o cara do metrô.

coffee cigarettes web new O Cara do Metrô

O que é andar na moda?

 O que é andar na moda?

marisa O que é andar na moda?
O que é andar na moda? Pagar super caro por uma roupa em que o único diferencial é a sua etiqueta ou andar por aí com um visual lindo e combinando com você? Hoje em dia a galera se preocupa muito mais com a marca da roupa que usa do que de fato se ela é bonita. Eu não consigo ser assim. Acho que é super possível me vestir bem, com roupas mega legais sem ter que gastar o equivalente ao valor do meu aluguel num look.
E é justamente pensando nisso que a Marisa resolveu fazer um teste cego da moda com o desfile interativo - Teste Cego “Achados Jeans” aproveitando para apresentar a coleção Jeans da Marisa. Eu sou fã de calça jeans e acho o máximo uma coleção como a Casual do Achados Jeans, que me permite usar um tênis e flanela ou salto alto e blazer com a mesma peça.

“AIN ANA, MAS POR QUE VC ESTÁ ME CONTANDO TUDO ISSO?!” É simples mon cherrie! Quero convidar você para participar deste teste cego que está rolando no site. Eu já participei e adorei! São 30 looks pra você adivinhar o preço e, acredite, você vai se surpreender!

blogs vlogs jeans fullbanner 468x60 O que é andar na moda?

Terapia

large rose colored glasses on beach Terapia

O único horário que conseguiu marcar consulta foi numa terça feira às 14:30. O dia estava lindo e leve, típico dia que surge depois da chuva. Ela estava bem, se sentindo feliz, afinal fazia quase uma semana que não se via o sol na cidade.

Foi a pé até o prédio e ao entrar, se deparou com um porteiro gordo e de uniforme azul suado, que limpava a orelha com uma tampa roída de caneta Bic. Diante da cena desconfortável, olha para o porteiro e pergunta:

- A Dra. Regina?
- É no 704, sétimo andar.

Entrou no elavador que tinha idade para ser o seu avô. Era daqueles elevadores que não querem saber se você já entrou, fecham quando estão com vontade e não se importam se amputam a sua perna neste processo.

Bateu na porta e esperou uns cinco minutos até a própria doutora abrir. Era um consultório pequeno e não havia secretária ou recepção, apenas uma cadeira para esperar antes de entrar na sala de consulta.

Enquanto lia uma revista Caras que falava sobre o casamento de Ronaldinho e Milene Domingues, viu uma moça saindo da sala. Ela estava com o rosto inchado de tanto chorar, saiu rapidamente e bateu a porta com força.

“Acho que a próxima sou eu”

Ao entrar na sala, viu duas poltronas com mantas coloridas e uma mesinha de centro com duas caixas de lenços de papel. Notou o quadro desbotado de uns lírios pintados e umas rachaduras no teto.

- Onde eu sento?
- Onde você quiser, sinta-se à vontade.
- Mas… qual é a poltrona do paciente?
- A que você escolher.

Já sem se sentir à vontade, sentou-se na poltrona com manta roxa, achava que já estava sendo testada ou diagnosticada pela sua decisão. Começaram a conversar.

- Então, por que você está aqui?
- Na verdade não sei.
- Mas o que te fez marcar a consulta?
- Um amigo disse que seria bom.
- E você acha que pode ser bom?
- Talvez, mas não tenho muita coisa pra falar, na verdade.
- Mesmo?
- É. Está tudo bem, trabalho vai bem, família também. Não tenho problemas, está tudo bem.
- Nenhum problema?
- Nenhum, está tudo bem.
- Você não acha que isso poderia ser negação de algum problema?

Ao ouvir a palavra negação, sentiu-se incomodada. Não gostava que as pessoas falassem isso como se ela quisesse fugir das coisas, ficou nervosa e acabou rindo.

- Engraçado, é a mesma coisa que o Rafa fala pra mim.
- Ele fala o quê?
- Sempre que a gente discute, ele diz que eu estou em negação.
- Quem é Rafa?
- Um “amigo” meu.

Respondeu, fazendo as aspas no ar.

Continue reading