Contos

Desconhecido Poeta – Parte 2

Ela já sofria de insônia há anos. Tudo começou por causa de um coração partido que demorou para cicatrizar, mas com o passar do tempo habituou-se com a madrugada e o silêncio que acalentou seus medos, permitiu seu ápice criativo e ouviu sua ansiedade em relação à vida.

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A ideia de ler os versos de um poeta local que sofria do mesmo mal mexeu com ela que estava feliz e curiosa após a dedicatória. Sua vida andava em um marasmo sentimental. Não acontecia nada ruim nem bom. Não havia felicidades ou frustrações. Era uma rotina automática e sem grandes emoções.

Consistia em acordar, perceber que não dormiu bem, alimentar os gatos, tomar café, ler um livro no metrô, ir para a redação do jornal para escrever sobre o que não gosta, almoçar com os colegas e ouvir assuntos desinteressantes, tomar mais um café, escrever sobre quem era o novo affair do novo famoso, ouvir música no metrô, ir para o pilates, tomar banho, assistir um filme ou ler mais um pouco, limpar a areia dos gatos e deitar. Deitar apenas. Porque dormir não era algo controlável, simplesmente acontecia quando o seu corpo exausto se rendia ao cansaço. No outro dia recomeçava da mesma forma, acordar, perceber que não dormiu bem…

Olhou a capa mais uma vez e acariciou lentamente no papel fosco que retribuiu a gentileza deixando seu braço arrepiado.

“Devo estar ficando louca, impossível ficar arrepiada por fazer carinho num livro, será que deixei a janela aberta?”.

Voltou a atenção ao primeiro poema que dizia

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Desconhecido Poeta – Parte 1

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Quando começa o outono e as pessoas tendem a sair menos de casa, ela sente uma súbita vontade de sair. Resolve passear pela cidade, sozinha e sem destino, apenas deixando seus pés guiarem o caminho para redescobrir sua cidade mais uma vez.

O vento acaricia seus longos cabelos e ela lembra que tem uma touca na bolsa para poder se esquentar. Aquela touca vermelha que a avó tricotou, a sua preferida. Sorri por sentir o frio novamente e deixa sua rádio mental escolher as músicas que vai escutar. Lembra de Eric Clapton e murmura Change The World pelas ruas praticamente vazias naquela tarde de domingo.


“Hm… apropriado… Eric faz aniversário por essas épocas acho” pensa enquanto chuta uma pedra pela calçada.

Entre um chute e outro é atraída pelo cheiro forte de café duas casas à frente e percebe que há uma cafeteria aberta com uma placa na rua que ela não consegue ler direito, pois esqueceu os óculos em casa. Se aproxima e decifra as palavras escritas em giz.

“Aqui não apressamos você pra sair. Pode entrar…”

Sorriu novamente ao perceber a placa convidativa e entrou em debate consigo mesma pensando como hoje em dia não há mais lugares para poder curtir sem estar necessariamente consumindo algo. Há sempre pressa pra comer, pressa pra conversar, pressa pra pagar a conta e sair para liberar o lugar para o próximo cliente. Não há razão para se deixar envolver pelo lugar. Não há razão, há muita pressa.

Entrou na cafeteria e se viu rodeada de estantes cheias de livros.

–       Livros e café? Estou em casa.

Disse em voz alta quando passou pela porta. O dono, que era um senhor de idade com um grande bigode branco e chapéu sorriu e respondeu.

– Que bom! Então fique à vontade, querida. Aqui não temos pressa.

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Percebeu mais três pessoas sozinhas lendo em poltronas espalhadas pelo lugar e um casal que lia com os pés descalços entrelaçados no sofá, suas canecas de café sobre a mesa e os sapatos em um canto.

“Que lugar surreal, é possível existir algo assim numa cidade tão fria?”

Pediu um espresso duplo e uma torta de maçã por sugestão da menina do balcão que, em meio a conversas sobre o tempo e outras amenidades, acabou revelando ser a neta do senhor dono do lugar. Intrigada por ver uma adolescente trabalhando numa cafeteria com pouco movimento em um domingo gelado, perguntou:

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Bom Dia


Acordo com o carinho do vento que entra sorrateiro pela janela, moderado apenas pelo movimento das leves e brancas cortinas que mal servem para bloquear a luz da manhã do verão que acaba de chegar. Observo o movimento das folhas na árvore do jardim, suspiro e lembro que é domingo, há nada que nos faça sair da cama antes da nossa vontade, viro para o seu lado e te vejo dormindo, sereno e tranquilo, quase sorrindo.

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Ainda é difícil acreditar que o destino nos fez encontrar e que a nossa sintonia se fez tão simples e ao mesmo tempo tão intensa. É difícil acreditar que quando nos vimos, nos olhamos como velhos conhecidos de outras décadas e outras viagens sem mesmo conseguirmos explicar porquê.

Você respira tão profundamente que seria pecado te acordar, então fiquei quietinha, mas não resisti em deslizar minhas mãos pelos teus longos cabelos e pela tua barba. Mesmo dormindo, você suspira e sorri, lembro que sempre disse que gosta do jeito que eu faço carinho.

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Seu corpo acorda lentamente, você se vira pra mim, abre os olhos, sorri e diz, com a voz ainda rouca que eu adoro: bom dia.

– Bom dia

Respondo, ainda não acreditando que nos entregamos um ao outro.

Você me abraça e sinto a sua pele com a minha. Não sei o que tem a manhã que faz nossa pele ficar mais macia, mais palpável. Já notou isso? O quanto o primeiro abraço e primeiro toque do dia são incríveis?

Você ri.

– O que foi?

Pergunto, percebendo que mesmo depois de tanto tempo, você ainda me surpreende.

– Você.

– Eu o quê?

– Não sei…

Então você me abraça com vontade, cheira e beija meu pescoço, e nesse hora o vento que vem da janela já não consegue esfriar o calor que sentimos na cama. Transamos de forma lenta e intensa, mantendo o contato no olhar que consegue ser mais forte que o contato físico que temos no momento. Juntos, chegamos ao último suspiro. É o melhor bom dia que podemos ter. É domingo, há nada que nos faça sair da cama antes da nossa vontade. Adormecemos novamente, ambos sorrindo.

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Acordo com o despertador, você não existe, é quinta-feira e estou atrasada. Levanto porque preciso trabalhar.

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O vinho na estante

Play:

Já é tarde da noite, chove lá fora e dentro de mim faz mais frio que o próprio inverno que já se despediu. Há uma garrafa de vinho na estante e penso em bebê-la apenas para relaxar, ouvir jazz, olhar para o teto e pensar na vida,  porém penso o quanto seria melhor dividi-la com alguém, ouvir jazz e olhar para o teto durante o sexo apaixonado, quente e de completa entrega.

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Guardo o vinho. “Nunca se sabe o dia de amanhã” me consolo e tento afirmar para mim mesma que o amor está ali, na próxima esquina, esperando para me encontrar.

Consolo-me em vão, pois sei que o dia de amanhã será vazio, cheio de rotina e encontro com pessoas fúteis de atitudes inúteis que não conseguirão nem ao menos fazer um sorriso sincero brotar em minha boca. Se ultimamente minha boca não tem sorrisos sinceros, quem dirá beijos e palavras de amor?

Estou sozinha há muito tempo, há mais tempo que gostaria e me encontro sem perspectiva de mudar. Será que sou exigente demais? As pessoas dizem que devo baixar meus padrões. Será que é isso mesmo? Devo me contentar com alguém que me trate pior que mereço, que se entrega menos que eu ou não compartilha da mesma ideia de amor que a minha? Não. Eu me amo e o mínimo que mereço é alguém que possa me complementar. Não completar, pois completa sou por mim mesma. Complementar minha vida, estar ao meu lado, crescer junto e adicionar ao que já é completo.

É triste pensar que ainda não consegui encontrar o amor apenas por me amar demais, mas ao mesmo tempo é muito feliz saber que cheguei ao ponto de escolher estar perto apenas do que me faz bem.

Não acredito nesse amor estranho que vejo por aí, em que as pessoas praticamente lutam entre si para amar. Amor que ameaça não é amor. Amor que mendiga não é amor. Amor que sofre não é amor. Amor que dói não é amor.

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Não quero amor de novela ou para ser exibido em redes sociais. Quero o amor simples, a ideia de estar perto de uma pessoa porque há similaridade de ideias e convicções. O amor simples que dá carinho sem esperar nada em troca. O amor que não tem ciúmes, pois confia e não tem medo de perder. O amor simples que se diverte fisicamente e faz sexo pelo momento de prazer mútuo. O amor que não tem medo de envelhecer. O amor que não domina, mas coexiste.

Não sei se o amor que coexiste realmente existe, mas enquanto isso deixo o vinho guardado e planejo abri-lo com a pessoa certa, embora saiba que, muito provavelmente, será aberto na próxima crise existencial.

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Brincadeiras do Universo

Se quiser, aperta o play:

Não se sabe direito qual era a posição dos planetas naquele dia, mas aparentemente o universo estava de bom humor e pronto para brincar com esta menina. Um dia de semana qualquer, em que não se espera muita coisa. Não se sentia frio ou calor, não havia pássaros cantando ou qualquer sinal de que algo especial aconteceria. Com o susto do som da campainha, saiu do seu quarto e foi ver quem era. Ao abrir a porta, ficou sem reação por alguns segundos, foi surpreendida por um sorriso diferente.

Esqueceu do mundo e ficou confusa por um tempo. Sabia que nunca havia visto um daqueles, ele a agradava e ao mesmo tempo a incomodava. “Que porra de sorriso é esse?!”

Uma coisa sabia ao certo, fazia tempo que não se via intrigada dessa forma. Esperou alguns segundos e o convidou para entrar. Com alguma vergonha, é verdade.

“Entra, seja bem vindo…”

Raramente aceitava estranhos na sua casa, mas aquele não era qualquer estranho. Era um amigo de um amigo seu. Imediatamente voltou ao seu papel de anfitriã, oferecendo o sofá para descansar e uma cerveja para tomar, não queria se deixar levar pelo que sentia no momento.

Depois de alguma conversa, notou que daquela boca não saía apenas um sorriso intrigante, mas também palavras inteligentes. Envolvida pelo papo, pelas piadas e pela sensação de conforto ao trocar ideia, esqueceu completamente do que sentiu quando abriu a porta e voltou para a realidade.

Verdade seja dita, esta menina era sozinha, conversava pouco com pessoas por aí, sentia-se carente de inteligência e sorrisos.

O que ela não esperava é que a visita seria muito curta. Como um show que termina cedo demais, algumas horas depois, o sorriso foi embora. Exatamente.

Foram poucas horas de contato, mas tempo o suficiente para deixar saudade e aquela vontade absurda e querer vê-lo novemente. E aí que o universo começou a brincar.

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Longe dele, contentou-se com as ligações pelo computador e mensagens trocadas pelo celular. Infelizmente essa era a única alternativa para manter contato com aquele sorriso, que agora era distante e virtual.

Zangada por não ter perspectiva de vê-lo tão cedo, começou a pensar em alternativas para fazer este encontro acontecer. Aproveitou o fim do ano que estava chegando e o falou sobre o plano de fazer uma viagem para a praia onde ele estava. Não tinha como negar, ela encontrou um sorriso capaz de fazê-la cruzar estados apenas para poder conhecê-lo melhor, não queria nada mais que apenas passar tempo com ele.

Idiota que era, havia esquecido da brincadeira do universo, que se concretizaria no decorrer da semana. Viajou até a praia e, com o coração quentinho, combinou de encontrá-lo um dia depois. Ela esqueceu que tudo parecia bom demais para poder dar certo e, como nestes filmes de comédia romântica, o universo tratou de fazer os desencontros começarem a acontecer, eles não se encontrariam nem no primeiro ou segundo dia de viagem. Reorganizaram suas agendas, uma, duas e até três vezes, mas sempre havia algo que os impedia do reencontro.

Seus amigos diziam para que desistisse, pois não valia a pena tanto trabalho pra tentar ficar com alguém. Ao contrário do que eles pensavam, ela não queria ficar com ele, apenas tinha vontade de passar mais tempo junto, conversar e entender por que aquele sorriso mexera tanto com ela.

Realmente, parecia que o universo não queria eles juntos mesmo, até que, por intermédio de alguns amigos, encontraram-se em um bar. Infelizmente, quando finalmente conseguiram se ver, foi por apenas 5 minutos, na calçada, combinando onde se encontrariam mais tarde. O que não aconteceu.

Bem como toda essa história, os próximos momentos foram recheados de desencontros. E assim, a viagem dela acabou. Impedindo qualquer reencontro ou momento para desfrutar de novos sorrisos. Já voltando pra casa, sorriu sozinha, pois lembrou que, mesmo que por 5 minutos, aquele sorriso que a intrigou tanto a fez feliz.

O que restou foi a dúvida: por que o universo resolveu brincar justamente com aqueles dois?

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O Café e o Livro

café + livro

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Fazia tempo que eu não tinha uma noite de insônia dessas, nem enquanto estava na cidade que não dorme era assim. Mesmo com som de carros, sirenes e bêbados pela rua, eu dormia feito pedra, mas dessa vez passei a noite em claro. Tudo me incomodava e me mantinha acordado. Os cobertores estavam pesados demais, o barulho do vento nas árvores era irritante e eu não conseguia ficar confortável em posição nenhuma.

Olhei para o lado e ela dormia com a mesma serenidade de sempre. Estava no mundo dos sonhos, o seu declarado lugar favorito. Decidi não incomodá-la com minha inquietude e fui para ocupar o meu ócio insone.

Eu adorava as nossas viagens no tempo, a chalé era ida garantida para o passado. Sem celulares, sem distrações e sem tecnologia, só o básico para entretenimento em dias de chuva. Peguei uma fita de um faroeste em preto e branco e coloquei no velho vídeo-cassete que funcionava como novo. Assisti uns três filmes até os pássaros começarem a cantar e o sol iluminar a sala.

Fui até a varanda, peguei meu livro e acendi um cigarro, olhei para o horizonte e ainda impressionado pelo cenário que via, pensei nela.

Lembro exatamente da primeira vez que a vi. Lembro tão bem que nem acredito que já se passaram 8 anos. Estava no jardim do campus da universidade com suas amigas e era a mais desarrumada de todas, mas a que mais chamava a atenção. Não sei o que tinha, mas brilhava muito além do que eu podia imaginar. Fiquei namorando aquela moça de longe, sem coragem pra me apresentar ou conversar.

E se ela me achasse um idiota? Será que eu iria falar besteira? Ela tinha cara de quem gostava de cara machão e eu não era do tipo mais másculo que existia. Sou daquela linha sensível que prefere as músicas mais lentas do Led Zeppelin e não curte muita aglomeração. Gosto muito mais de ler um livro, na minha, sentado em qualquer canto que tenha algo verde.

Fiquei nessa de amor platônico até encontrá-la em uma festa alguns meses depois. Eu não conhecia ninguém e ela, aparentemente, conhecia todo mundo. Transitava de grupo em grupo, ria alto e gesticulava muito. Até que veio diretamente a mim.

– Você é o único que não está conversando com alguém e é por isso que quero conversar com você.

Paralisei, não conseguia responder nada ou emitir qualquer som. Fiquei impressionado com aqueles olhos gigantes, que me encaravam e sorriam por si só. Eu não tinha certeza que aquilo realmente estava acontecendo. Depois de alguns segundos, que pareceram durar uma eternidade, consegui finalmente responder:

– Por quê?

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