Motivacional

O estupro e o antidepressivo

Este é um post difícil de escrever, muito mesmo, até porque eu havia me prometido que não falaria mais sobre a minha vida pessoal ou intimidade de forma tão explícita na internet. Ainda estou firme no objetivo de manter minha vida pessoal preservada a partir de agora, porém, acredito que este post, essa exceção da promessa, é importante, pois pode salvar a vida de outras pessoas como eu.

3 anos e 8 meses atrás sofri um estupro. Eu morava em São Paulo em um apartamento maravilhoso, tinha amigos maravilhosos, ganhava muito bem com a minha carreira de youtuber, havia perdido 38kg e minha autoestima não podia estar melhor, neste momento de vida fui a um encontro com um homem e, por precaução, bebi somente água, porém fui drogada e estuprada dentro da minha própria casa. Lembro apenas de flashes do que aconteceu, lembro que eu dizia não e que quando recobrava minha consciência estava fazendo justamente as coisas que eu não queria. Lembro que ele usou camisinha. Lembro que fiquei machucada por uma semana. Não lembro mais de nada.

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Porém uma coisa vive em mim até hoje. O sentimento de ter virado estatística. Não tive coragem de denunciar, pois fiquei com medo que ele me matasse. Não tive coragem de contar pra ninguém, pois me culpei por ter ido a um encontro com um cara que conheci na balada. Achei que a culpa era minha e sofri calada. Não fui ao hospital. Lembro do medo absurdo que senti quando fui abrir meu primeiro teste de HIV feito 6 meses depois deste trauma. “Então é sobre isso que essas feministas falam?” pensei, quando finalmente notei que essas feministas eram mulheres corajosas que apenas lutavam pela vida de todas nós.

Me assumi uma dessas feministas.

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Meus vídeos mudaram drasticamente de rumo, eu precisava alertar outras mulheres e outras meninas sobre o quanto nós precisamos lutar por nós mesmas. Conquistei um público diferente, porém não consegui me recuperar psicologicamente do que aconteceu. Fazia 3 anos e 8 meses que eu não conseguia mais dormir. 3 anos e 8 meses que todas as minhas noites eram repletas de pavor noturno e pesadelos aterrorizantes. 3 anos e 8 meses que eu não tinha mais vontade de viver e cada dia era uma luta gigante dentro de mim em que eu tentava me convencer que a vida valia a pena e que eu merecia ser feliz novamente.

Voltei para Porto Alegre, pois São Paulo me apavorava, minha cabeça doía e eu hiperventilava quando estava na rua, pois sentia medo de encontrar meu estuprador em qualquer esquina. Me isolei, não saía de casa, desenvolvi pavor por qualquer ser humano e fiquei dois anos sem conseguir me relacionar. Lembro quando estava ficando com um amigo meu que eu amava do fundo do coração, um dos primeiros que consegui ficar depois do estupro, e na hora de transarmos eu apenas sentei na cama e chorei. Eu não queria que ninguém me tocasse.

Eu até conseguia ficar com meninos, mas não conseguia transar. Ninguém tinha paciência para esperar eu me sentir à vontade. As únicas relações sexuais que consegui ter foram quando eu estava completamente bêbada a ponto de não associar o presente ao passado. Mesmo assim era difícil. Muito difícil. O dia seguinte era feito de lembranças do trauma, os flashes voltavam fortes demais e eu chorava tomando banho enquanto tentava me convencer que tinha sorte por estar praticamente inconsciente quando fui estuprada e ainda estava viva.

Minha cabeça estava quebrada. Eu não conseguia dormir durante a noite, meu corpo desligava em algum momento e os pesadelos começavam, então eu acordava na metade do dia, já exausta e com dores no corpo. Eu não tinha forças para pedir ajuda, pois pedir ajuda implicava em contar o que aconteceu comigo para alguém e eu não tinha coragem de fazer isso.

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Eu ficava dias sem tomar banho, não lavava a louça, não arrumava minha casa. Eu apenas sofria. Tentava até fazer vídeos para o meu canal, mas não tinha força de vontade para fazer algo bom. Eu estava perdida e minha cabeça estava quebrada.

1 ano e meio atrás comecei a ficar com um homem e disse para ele “eu preciso que você tenha paciência comigo, eu tenho problema com o toque das pessoas” então ele respondeu “pedi a Deus que ele me desse paciência e ele me mandou você”. A hora certa chegou e em meio a lágrimas e o meu corpo todo tremendo, contei para ele o que havia acontecido comigo. Recebi o maior apoio da vida e finalmente consegui sentir prazer sexual sem associar ao que aconteceu comigo. Não foi tudo lindo sempre, eu tive crises, uma vez cheguei a empurrá-lo e dizer “sai daqui estuprador” e me culpei demais, pois não sabia por que havia feito aquilo afinal não estava sendo forçada a nada e ele não tinha culpa. Minha cabeça estava quebrada, mas aos poucos eu comecei a ter vontade de viver novamente.

Eu queria ficar bem. Eu decidi ficar bem.

Fiz um treinamento de Desenvolvimento e Liderança baseado em Programação Neurolinguística e em um fim de semana consegui recobrar minha confiança nos seres humanos, deixei de ter medo do toque e tive coragem de contar a minha história para 30 pessoas desconhecidas. Eu estava me curando.

Arrumei meu computador e comecei a planejar vídeos melhores, alguns que eu morro de orgulho até hoje, porém como fiquei muito tempo sem conteúdo de qualidade e muito tempo parada em função das minhas cirurgias para remover o excesso de pele, o dinheiro parou de entrar. Resolvi procurar um emprego e então voltei a ter muitas crises. Abandonar o que me dava prazer e voltar ao mercado de trabalho não era fácil e a minha condição de depressão deixava ainda mais difícil. Pra mim aquilo era o fim do mundo, mas eu estava decidida a fazer dar certo.

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Não era fácil conviver com alguns colegas fazendo piadas racistas, machistas e homofóbicas o dia todo, mas eu me esforçava, estava dedicada, eu queria melhorar. Porém, em um incidente da firma, um dos homens compartilhou um vídeo pornográfico amador no grupo de whatsapp da empresa. Eu não consegui identificar o que era antes de apertar o play e fiquei apavorada ao ver o conteúdo do vídeo. Respondi no grupo da empresa que não concordava com esse tipo de conteúdo, pois muitas dessas mulheres nem sabem que estão sendo filmadas ou se sabem não autorizaram o compartilhamento. Falei sobre slutshaming e fui para o banheiro chorar.

Meu corpo doía, minhas pernas tremiam e eu não conseguia respirar. No momento que dei play no maldito vídeo fui transportada direto para o meu estupro e ao pensamento que me aterroriza até hoje “eu não consigo lembrar se ele me filmou ou não”. Toda vez que vejo uma notícia de “OLHA A VAGABUNDA DANDO GOSTOSO” eu fico me perguntando “será que sou eu?”.

Chorando pedi para voltar para casa, pois não tinha condições de continuar trabalhando, porém ao chegar em casa meu peito doeu de forma tão absurda que achei que ia morrer. Fui ao hospital para receber oxigênio e calmante. Minha mãe apareceu apavorada e o médico deu o diagnóstico “você teve uma crise de pânico”. Aí foi o momento que minha mãe perguntou “o que aconteceu?” e eu percebi que precisava contar.

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Contar para a minha mãe que eu fui estuprada em São Paulo foi uma das coisas mais difíceis que já fiz, porém uma das mais libertadoras também. Aquele segredo não me consumia mais por dentro.

Porém, depois daquela crise de pânico eu não consegui mais ser a mesma, não consegui voltar a trabalhar direito, meu rendimento caiu e eu fui demitida.

Comecei a comer compulsivamente até sentir dor. Meus pesadelos eram cada vez mais apavorantes e reais, eu me sentia torturada durante a noite e durante o dia não tinha forças pra absolutamente mais nada. Comecei a ter tonturas frequentes e enxaquecas terríveis, me apavorei e fui para um neurologista, fiz aqueles exames caríssimos e nada foi detectado.

Então comecei a ter sintomas ainda piores. A impressão que eu tinha é que eu estava bêbada sem ter bebido uma gota de álcool, tudo em volta se mexia em câmera lenta. Eu não reconhecia os lugares que eu mais frequentava, me sentia perdida e ficava paralizada de medo. Ah… o medo.

Passei a ter medo de exatamente tudo e fiquei completamente paranóica, eu não conseguia definir as feições das pessoas, tudo parecia cara de ódio pra mim. Eu achava que meu namorado estava me traindo,  que as pessoas da minha rua queriam me matar, que eu era inconveniente o tempo todo e que todo mundo me odiava. Ficava apavorada constantemente achando que minha mãe e minha irmã iam morrer a qualquer momento. A minha cabeça só via o pior em tudo e eu não conseguia pensar diferente. Meu corpo estava reagindo de forma estranha, eu não tinha noção de temperatura, as roupas me incomodavam e pareciam machucar. Minhas mãos pareciam molhadas o tempo todo. Eu não estava bem.

Eu tomava atitudes terríveis, me arrependia e me culpava depois. “Meu deus, eu não consigo me controlar, eu não sou essa pessoa, o que está acontecendo? Será que enlouqueci?”

Sim. Eu tinha certeza que tinha enlouquecido. Eu estava a ponto de pedir para a minha mãe me internar.

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Foi então que a vida me deu uma série de perdas. Eu não tive mais dinheiro para pagar minhas contas e tive que vender tudo o que tinha conquistado com o meu trabalho. Doeu. Minha conta bancária estava extremamente negativa e eu sem saber de onde tirar pra cobrir o déficit. Doeu. Tive que decidir voltar para a casa da minha mãe e lidar com a sensação de retrocesso. Doeu. Eu estava decepcionada com os meus vídeos no youtube e tinha decidido largar o canal. Doeu. Meu gato, meu filho, Al Capone, com 11 anos apresentou insuficiência renal e começou a definhar. Doeu demais. Meu relacionamento terminou e de uma hora para a outra toda a vida que eu tinha se foi.

Passei duas semanas de inferno. Chorando desesperada porque o que mais me doía era perceber que eu não tinha mais forças para recomeçar.

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Me doía perceber que de todas as coisas que eu perdi a que eu mais sentia falta era eu mesma. 

Onde estava aquela mulher guerreira que eu era? Onde estava a Ana decidida e que enfrentava os problemas de cabeça erguida? Será que eu realmente era essa pessoa paranóica, pessimista, medrosa e ansiosa que não conseguia lidar com pessoas e tomava atitudes que faziam mal para mim e para os outros? Será que eu era uma pessoa falsa como muitos falaram? Será que eu era essa pessoa que eu não gostava?

Não. Eu não era. Aquela Ana guerreira e decidida e que eu admirava estava em algum lugar e eu precisava encontrá-la.

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Desabafei com uma amiga e ela disse “Ana, isso tudo é química do teu cérebro, eu já passei por isso. Você vai melhorar”.

Então decidi enfrentar os meus preconceitos e marcar um psiquiatra. Eu sempre fugi dos remédios antidepressivos. Eu acreditava que podia curar minha depressão apenas com boa alimentação, exercícios e meditação. Santa ignorância, batman.

Fui à consulta e depois de ter contado toda essa história que você leu no post eu disse: Eu sei que vai ficar tudo bem, sei que tudo passa e que fases difíceis acontecem sempre na vida. O futuro não me preocupa, eu preciso de algo que me ajude a lidar com o presente. Eu preciso dormir.

Meus amiguinhos, escutem o que a Tia Ana vai falar. Começar a tomar remédio antidepressivo foi a melhor decisão que eu já tomei na minha vida. Eu estava doente e me recusava a admitir. Eu precisava de ajuda e me escondia atrás dessa pseudo capa de super heroína que ser a Ana De Cesaro do Tá, e Daí?! me dá. O remédio tirou com a mão todos os meus medos, ansiedades e paranóias.

Eu voltei a viver.

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Faz uma semana e meia que eu consigo dormir todos os dias e a noite é silenciosa apesar dos sons dos carros na rua. Eu acordo em um horário saudável e incrivelmente disposta. Consigo produzir e editar vídeos que me orgulho. Consigo ir para a academia e comer apenas coisas saudáveis, pois a comida não é mais uma fuga para mim. Neste tempo já emagreci 5kg e voltei a ser a Ana guerreira e decidida que sou. Voltei a ser a Ana que eu admiro e que amo ser. Minha autoestima está de volta e eu não fico mais apavorada apenas por colocar o pé na rua.

Eu estava doente e precisava de ajuda.

Agora estou de volta.

3 anos e 8 meses depois.

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Se você também está sofrendo, por favor, procure ajuda também, mas não amanhã, procure AGORA MESMO. Você não merece passar nem mais um dia neste inferno mental e de puro sofrimento que ninguém de fora consegue entender.

 

 

 

 

 

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Por

Ana De Cesaro

em 21 de outubro de 2016

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